sábado, novembro 15

Humanete II

Ao fazer uma pesquisa na internet, mais especificamente através de um popular motor de busca (que já se tornou verbo), da palavra “inovação,” foram encontrados 6.830.000 resultados. Fazendo a mesma busca com a expressão em inglês, “innovation,” foram encontrados 123.000.000 de resultados, cerca de 18 vezes maior que a anterior. Não sendo muito relevante para o assunto desta tese, é significativo o peso que a inovação tem nos dias que correm.

A febre de inovação não pára de subir: Magalhães, Projecto e-Escolas, formação de equipas de trabalho nas organizações, etc. Tudo serve de pretexto e de contributo para a inovação. O facto de a inovação introduzir algum grau de mudança (p.e. mudança de estratégia ou adição de um novo público-alvo) (Dougherty, 1999) favorece, por exemplo, até os candidatos presidências dos Estados Unidos da América, envergando o chavão da mudança e da inovação. Favorece também, num outro exemplo, a imagem de Portugal no panorama internacional. Quem não se lembra da oferta generosa que o Primeiro-ministro português José Sócrates fez, na Cimeira Ibero-Americana de 2008, em que “ofereceu computadores Magalhães aos Chefes de Estado e de Governo dos 22 países que participaram na XVIIII Cimeira Ibero-Americana, na capital de El Salvador” e que “a distribuição dos computadores Magalhães antecipou o anúncio de que o Governo português escolheu a Inovação e as Novas Tecnologias como temas da Cimeira Ibero-Americana de 2009, que será organizada por Portugal” tendo um resultado benéfico em termos de vendas, pois “depois da Venezuela ter assinado um contrato para a aquisição de um milhão de computadores, Portugal procura agora entrar nos mercados do Brasil, Chile e Argentina, países que já mostraram interesse no Magalhães. “ (http://ww1.rtp.pt/noticias/?article=370336&visual=26&tema=2) Apesar de não almejar ser um texto jornalístico, este excerto demonstra como a inovação serve para variados propósitos, como neste serve de estandarte de desenvolvimento e investimento por parte de um Estado.

A palavra entrou na linguagem do dia-a-dia, sendo aplicada correctamente em alguns contextos, mas noutros é utilizada abusivamente. Exemplo disso é o facto de surgir, como acontece em algumas organizações, como uma espécie de Santo Graal que resolverá todas os problemas inerentes com o clima de incerteza que se vive. Não há problema em prometer “inovação”. A questão reside na vacuidade da promessa, ou seja, o Graal costuma estar vazio.

Outra questão inerente à utilização da expressão “inovação” é a limitação do conceito. Quando se escolheram os temas para a Dissertação de Mestrado Integrado, colegas da mesma secção e de outras secções e “credos psicológicos”, na sua curiosidade natural (e também com intenções de benchmarking), perguntavam qual o tema da tese e qual o orientador que tinha escolhido. Respondia sempre da mesma forma: “Inovação, mais especificamente, Clima para a Inovação”. Foram raros os casos em que não obtive uma resposta/pergunta relacionada com o facto de ir estudar as Novas Tecnologias ou as Tecnologias de Informação. O mesmo aconteceu com familiares e amigos fora da faculdade. E acontece com as pessoas em geral. Aproveitando o que foi escrito acima, o facto de a Inovação e as Novas Tecnologias terem sido a escolha do Governo Português como temas da Cimeira Ibero-Americana de 2009 pode influenciar, em parte, a confusão entre Inovação e Novas Tecnologias. As Novas Tecnologias fazem parte da Inovação, mas nem toda a Inovação é da esfera das Novas Tecnologias. Inovação pode manifestar-se através de uma obra de engenharia grandiosa, como por exemplo, o Estádio Olímpico de Pequim (ou Beijing, consoante os gostos), mais conhecido como Ninho de Pássaro. Pode manifestar-se também nas coisas mais simples, como por exemplo, utilizar um clip de escritório para resolver o problema da lapiseira que está estragada e que recolhe as minas ao escrever.

A Inovação está na moda. Na publicidade também é referida. Um produto que surja tem de ser inovador. Seja o design, seja o material de que é feito, seja o fim para o qual se vai utilizar, seja qualquer coisa. Terá de ser inovador. Exemplos disso são máquinas de barbear com cada vez mais lâminas, revestidas com uma liga metálica hipoalergénica, com uma pega ergonómica e com dezenas de patentes registadas num objecto quase insignificante que cabe na palma da mão e que ao fim de um tempo de utilização vai para o lixo. Outro exemplo é a cerveja, cujas marcas utilizam fórmulas artesanais, inventam novos sabores para adicionar à cerveja, introduzem novos designs de garrafas. Um dos últimos exemplos neste campo é um conceito que não sou o único a estranhar: cerveja de pressão engarrafada. Conceito inovador, embora estranho. Estas inovações em produtos são altamente publicitados, servindo de estandartes de desenvolvimento, obrigando concorrentes a desenvolverem novos produtos concorrentes, ou seja, a inovarem também eles.

1 comentário:

Anónimo disse...

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